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MÚSICA: Saiba por que é que estes artistas estão nomeados para Melhor Intérprete nos Globos de Ouro

Bárbara Tinoco, Camané, Carolina Deslandes, Dino d’Santiago e Lena d’Água são os candidatos ao prémio na gala deste ano.

Eles dão-nos música, e que bom que isso é! Aqui ficam algumas notas soltas sobre a razão por que cada um destes artistas figura nesta exclusiva pauta só para melhores intérpretes.

Bárbara Tinoco é um fenómeno e ainda agora tudo começou. Antes Dela Dizer Que Sim – tema original com o qual se apresentou, em 2018, na fase de casting do The Voice Portugal, onde acabaria por não ser selecionada – e já o público pedia mais. Havia que aferir se aquilo que esta jovem, autodidata no canto e na guitarra, mostrou no programa de talentos da RTP era um caso isolado ou arte pura. Provou-se a segunda hipótese. No ano seguinte, o tema tornar-se-ia no primeiro single da cantora. Ainda em 2019, arrisca o primeiro concerto em nome próprio e lança o segundo single, Sei Lá, depois de ter participado na digressão comemorativa dos 10 anos de carreira do músico João Só. Segue-se outro grande palco nacional, o Festival da Canção 2020, com um segundo lugar e a esmagadora preferência do voto do público, que auguravam mesmo ser o Passe-Partout para outros sucessos. Eles não tardaram, com casa cheia em quatro concertos na casa da Música, no Porto. A Fugir de Ser e Outras Línguas, terceiro e quarto singles da jovem cantora e compositora, lançados no decorrer ainda de 2020, dão consistência ao seu trabalho. Já este ano, em abril último, edita um EP onde António Zambujo, Carlão ou Carolina Deslandes são apenas alguns dos grandes vultos da música nacional a participar. Os tão desejados Coliseus de Lisboa e Porto abrir-lhe-ão as portas antes do final deste ano. E pensar que tudo começou há apenas três anos.

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Intérprete Individual, em 2001, e de tantas outras glórias, vividas maioritariamente em cima do palco a cantar o fado, Camané partilha com o público Esta Coisa da Alma. Este é precisamente o nome de um dos mais de meia dúzia de álbuns com os quais tem vindo a orquestrar a banda sonora de um país inteiro. Uma paixão de menino, uma voz rouca e sedutora, poemas de ontem e de hoje, uma existência que imaginamos misteriosa e todo o fado que cabe dentro de uma nação. Assim chegam ao público as suas interpretações, carregadas de sentimento, falando de coias que sentimos cá dentro. A sua é, por isso, uma voz que sentimos ser de todos. Nos últimos tempos, aqueles que importam agora, deu brado a sua parceria com Mário Laginha e o projeto conjunto Aqui Está-se Sossegado, que resultou em disco e espetáculos ao vivo. Uma colaboração que o fadista voltou a celebrar no CCB, em Lisboa, no final de 2020, perante uma casa cheia consoante o possível, mas ávida de emoções. Um concerto que passou em retrospetiva a sua carreira, e o seu talento, sobre os quais tudo parece ainda por dizer, na medida em que tudo o que se diz soa a muito pouco.

Já não sabemos viver sem o som da sua voz doce, dos seus poemas puros e cheios de sentimentos que parecem sussurrados ao ouvido, como confissões de que nos apoderamos. Carolina Deslandes entrou no Ídolos e rapidamente se tornou num deles. Criou uma estética muito própria, garantiu-nos que era para A Vida Toda e, só com esse tema, garantiu um lugar nos tops da nossa contemporaneidade: iTunes, Spotify e Youtube. Na última edição dos Globos de Ouro foi mesmo eleita a Melhor Música de 2018. Por Um Triz foi o tema com o qual participou na edição desde ano do Festival da Canção e que, ironicamente, ‘por um triz’ não chegou a vencer. Antes disso, devorou-se Mulher, EP lançado a 25 de novembro de 2020, Dia Internacional Pela Eliminação da Violência Contra As Mulheres. Um trabalho com uma voz e propósito ativistas que Carolina Deslandes defende em ‘causa’ própria. O projeto Mulher é ainda, nas palavras da artista, “um murro na mesa”, contra uma cultura misógina e abusiva onde ainda vigora a violência de género. Carolina Deslandes é, inegavelmente, uma das artistas maiores entre cantores e compositores nacionais e uma voz que se faz ouvir no palco e fora dele.

Num período de crise para todo o setor artístico, 2021 acaba por ser um ano memorável por outras e bem melhores razões para Dino D’Santiago. Melhor Artista Masculino, Melhor Álbum e Prémio da Crítica são os prémios Play que este ano se selaram com o seu nome. Uma quase réplica da edição de 2019, em que venceu nas categorias de Melhor Artista Solo, Melhor Álbum e igualmente o Prémio da Crítica. Soul, R&B hip-hop, afro-pop… São muitos os registos da dita música urbana em que o cantor se movimenta com habilidade e talento reconhecidos. A ele coube a emotiva e inesperada versão de Os Putos, no final da edição deste ano do Festival da Canção, em que se homenageou Carlos do Carmo. Neste biénio que cabe passar em revista, Dino sobressaiu em mais do que um palco. Dino d’Santiago Is Bringing Funaná to the World. Foi com este título que a mítica revista Rolling Stone fez o elogio internacional a Dino. Em plena pandemia, o cantor lança Kriola, um disco a rodar em loop nas plataformas digitais e que o Blitz elege como Melhor do Ano 2020. Um disco sentimental, dedicado à família, pensado à laia de carta escrita aos pais, com quem apenas conseguia comunicar através da música. Tanta coisa boa que quase nos esquecíamos de recordar o momento em que Dino D’Santiago subiu ao palco do Coliseu dos Recreios para, ao lado da diva da pop, Madonna, ela mesma, cantar o tema Sodade, de Cesária Évora. Só foi pena não ter podido atuar ao vivo.

Lena d’Água regressou e fê-lo em grande. A cantora surgiu, em 2019, com um novo álbum de originais, o que não acontecia há 30 anos. Grande Festa, uma ‘canção de macramé’ foi o tema de apresentação e deixou logo água na boca. O jornal Blitz considerou-o o melhor álbum nacional desse ano. Com letras de Pedro da Silva Martins, participações especiais que incluíram, entre outros, Benjamim, Francisca Cortesão, dos Minta, e arranjos de João Correia, o disco celebra uma das vozes mais marcantes da pop nacional e um dos ícones musicais dos anos 80. Numa espécie de caleidoscópio temático, Lena, que é D’Água, participou ainda em Madrepérola, nome do álbum de 2020, de Capicua, dando voz ao tema Último Mergulho.

Olhando para toda esta efervescência artística, quase se esquece que a música viveu um dos períodos mais negros da história recente. Ainda bem que a criatividade não se rende a quarentenas.

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