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CINEMA: Conheça os candidatos a Melhor Filme

A XXV gala dos Globos de Ouro acontece no próximo dia 3 de outubro.

Num mundo que, de repente, se viu povoado de salas de cinema de ecrãs apagados e cadeiras vazias, o cinema persistiu ainda assim, rodando enredos, estreando-se online, desdobrando-se em episódios televisionados, criando, para si mesmo, novos argumentos e muitos outras possibilidades de final feliz. Estas são as fitas que eles não deixaram de fazer a pensar em nós, enquanto nós sonhávamos com o seu regresso.

Tiago Guedes, realizador e coargumentista da obra, pega numa personagem que define como sendo “maior do que a vida” e com ela e através dela a história de todo o país apanha uma boleia de 50 anos de mudanças. Um registo épico de grande fôlego, a que o cinema português não estava habituado. Falamos de A Herdade, com produção de Paulo Branco, e dela se apoderou o país inteiro e por ela se apaixonou a crítica internacional. Festival de Veneza e de Toronto, quase cem mil espectadores em sala de cinema, cerca de 500 mil espectadores em cada um dos episódios da série televisiva a que deu origem, tema de capa da prestigiada revista francesa Arte… “and so on, and and so on”, como diria Herman José na pele de Lauro Dérmio. A Herdade é, por tudo isto e outro tanto, uma das obras nomeadas na categoria de Melhor Filme, na 25.ª edição dos Globos de Ouro. Tiago Guedes não é um estreante neste certame, tendo arrecadado o galardão de Melhor Filme de 2006, pela película Coisa Ruim, em parceria com Frederico Serra.

Listen, que marca a estreia da realizadora Ana Rocha de Sousa na longa-metragem, chega a esta nomeação para Melhor Filme com uma respeitável bagagem de galardões. No prestigiado Festival de Veneza arrecadou um total de seis prémios, entre os quais o Leão do Futuro e o prémio especial do júri da competição Horizontes, e esteve muito perto de conseguir a nomeação aos Óscares da academia norte-americana de cinema, como Melhor Filme Internacional. Baseado em factos reais, e fazendo uso de uma sólida economia narrativa, Listen relata o drama de uma família portuguesa a viver em Inglaterra que, por conta de uma situação financeira no limiar da subsistência e de erros de avaliação dos serviços sociais, se vê confrontada com um injusto e precipitado regime de adoções forçadas. Foi um dos filmes mais visto de 2020.

Mosquito, de João Nuno Pinto, é um filme de época que assenta arraiais em 1917, em plena Primeira Grande Guerra. É ainda um relato ficcionado que teve como ponto de partida a história verídica do próprio avô do realizador, recriada por Zacarias, um ingénuo militar, fardado com ideais de patriotismo e romantizadas ideias de glória. Um percurso que o espectador acompanha como se lhe vestisse a pele. Mosquito, cujo argumento ficou ainda a cargo de Fernanda Polakow e do ator Gonçalo Waddington, é também uma ferroada no colonialismo europeu. Na edição de 2019 do Festival de Roterdão, este foi o filme eleito para abrir o certame holandês dedicado ao cinema.

Também o cineasta Mário Barroso recua no tempo, até 1918, e se fixa em eventos reais que criaram tumulto nos conservadores costumes da sociedade portuguesa da época (não o fariam ainda hoje?). Ordem Moral conta a paixão duplamente proibida de Maria Adelaide Coelho da Cunha, casada, herdeira e proprietária do Diário de Notícias que decide fugir com um homem de condição social inferior – o amante é chauffeur –, com a agravante de ser ainda 26 anos mais novo, para escândalo da família e da sociedade. Uma relação, todavia, que espelha o caso extraconjugal do marido, também ele envolvido com uma jovem mais nova, frequentadora do círculo social do casal. Maria Adelaide ousa experimentar a liberdade, encetando uma fuga à ordem moral e uma evasão à hipocrisia. Ordem Moral arrisca agora o mesmo lugar que Um Amor de Perdição, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme, em 2010, também ele do realizador Mário Barroso.

De barbeiro a fenómeno artístico. De António Ribeiro a António Variações. De permeio, a vida de um homem-cometa que nunca caiu na armadilha de abandonar os seus sonhos, nem de se moldar ao espectável. Mais do que uma voz e uma referência da pop nacional, Variações foi o homem da frente no seu tempo – um tempo que é de todos nós – liderando a diferença e dando voz a mais do que canções e conteúdo a bem mais do que poemas. Foi esse trajeto que o realizador João Maia retratou em Variações, uma obra biográfica que resulta de um longo processo de 15 anos.

No final, uma certeza: ainda bem que eles fazem fitas!

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