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TEATRO: Estes são os nomeados para Melhor Peça/Espetáculo

Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra, Tiago Rodrigues, Rogério de Carvalho e Tónan Quito são os candidatos à estatueta.

No pedaço de tempo que nos cabe viver, pleno de desafios estranhos e bizarrias, onde pandemias e regimes opressivos ganham terreno e se banalizam, o Teatro, sensitivo como só ele, repensou este nosso lugar, questionou-nos e que bem que o fez!

A Coragem da Minha Mãe–Encenação de Jorge Silva Melo

Budapeste, julho de 1994. Quatro mil judeus húngaros partem para o mais temido campo de extermínio nazi, Auschwitz, mas um deles de lá regressa. Uma mulher que utilizou como passaporte para a sua libertação uma mentira que tornou na mais pura das verdades. Improvável. Ilusório. Inimaginável. Inacreditável. Esta, porém, é a história verídica do que sucedeu a ElsaTabori. Um relato que o seu filho, o dramaturgo húngaro George Tabori, documentou e estreou em 1979, e que ganhou em 2020 o (re)olhar atento e inspirador de Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos.Como referiu o encenador, em entrevista, aquando da estreia da peça –em novembro de 2020, em Lisboa, no Teatro da Politécnica –, mais do que coragem, foi preciso ter lata. Uma lata preciosa e uma arma de peso contra a opressão, já que no seu entender não se pode ter medo e a troça, mesmo contra o poder hitleriano, é um bilhete sem preço rumo à salvação. Brincando, agora nós, com o lema de Auschwitz: não é o trabalho que liberta, é a inteligência e a visão corajosa de homens das artes como Tabori e Jorge Silva Melo.

Esta é a quinta nomeação do encenador aos Globos de Ouro.

A Vida Vai Engolir-vos – Encenação de Tónan Quito

Tónan Quito encetou um feito homérico, chamando a si, mais do que a tarefa, o desejo de reunir num único corpo, num argumento uno, as quatro mais celebradas peças de Anton Tchékhov: A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal. Pegando no simbolismo que a madrugada tem em toda obra do autor russo, uma metáfora do futuro, do que há de vir e do que há de ser, o mega-meta-texto de Tónan Quito capta a falência social, a necessidade de mudança e a dificuldade em aceitá-la e, mais do que isso, de a encetar. Uma visão que recai na urgência de renovação. O resultado é brutal em mais do que uma via. São quase dez horas em cima do palco, num espetáculo extraordinário pensado para duas tipologias de apresentação. Uma primeira abordagem, aquela que melhor traduz a conceção do encenador, foi pensada enquanto maratona de teatro, do início da noite ao início do dia, ao início da tal madrugada agregadora, que serviu de argamassa para unir todas as peças trabalhadas. Ceia e pequeno-almoço incluíam-se no preço do bilhete. O outro formato dividia o espetáculo em duas partes, exibidas em salas distintas, o que, em Lisboa, articulou o Teatro Nacional D. Maria II e o São Luiz. Um teatro como nunca o vimos. Por último, que o tempo aqui é escasso, um reparo: o nome do encenador é um anagrama do primeiro nome do argumentista russo. Parece brincadeira do destino artístico.

Tónan Quito venceu o Globo de Ouro nesta mesma categoria, em 2016, pela encenação da peça Ricardo III.

Canja de Galinha (com Miúdos)– Encenação de Luís Miguel Cintra

Estava-se no final de 2019 e o mundo ainda era o que era antes de se tornar naquilo que é agora, quando o Museu da Marioneta, em Lisboa, nos abriu o apetite levando à cena uma receita caseira, da Companhia Mascarenhas-Martins, daquelas de encher a casa e aconchegar a alma. Canja de Galinha (com Miúdos), a partir de textos do escritor Camilo Castelo Branco e das peças Entre a Flauta e Viola e Patologia do Casamento, do mesmo autor, trouxe de volta aos palcos Luís Miguel Cintra em dose tripla. É dele a dramaturgia e a encenação e ainda brindou o público com uma pequena atuação em palco. Só isso já serviria de prato principal em qualquer ‘estabelecimento’ do mundo.

A peça versa sobre a felicidade da mulher, o caráter lúdico e afetivo de que as relações humanas se deveriam revestir, assinala as relações de poder, as regras e a hierarquia sociais, que tanto o autor como o encenador salpicam com bom vernáculo português e humor. Para o encenador, esta foi mais uma experiência dramatúrgica, com que tem vindo a calcetar o seu recente trajeto profissional, adaptando-o ao seu passo, que em nada travou a sua excelência, apenas apurou o seu talento. “Depois do fim da Cornucópia [em 2016] não faz sentido nenhum, com a lucidez que ainda me resta, apesar das dificuldades físicas que as pessoas sabem que tenho, ir agora concorrer com as coisas que já fiz sem ter os próprios meios para isso. Portanto, tenho feito diferentes experiências, que são experiências de inovar”, esclareceu Luís Miguel Cintra em entrevista à Lusa, a propósito desta canja de galinha, um prato que apetece repetir, sempre, e que Luís Miguel Cintra cozinhou com mão de mestre.

Luís Miguel Cintra foi distinguido com o Globo de Ouro de Personalidade do Ano de Teatro, em 1999, e o de Melhor Peça-Espetáculo, em 2008 e 2012, com A Tragédia de Júlio César, e A Varanda, respetivamente.

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas – Encenação de Tiago Rodrigues

Que título extraordinário e que peça inquietante! Um e outro têm o toque de génio de Tiago Rodrigues. O recentemente anunciado novo diretor do prestigiado Festival de Avignon, em França, assina o texto e a encenação desta peça, estreada em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, a 19 de setembro de 2020, antes de chegar a Lisboa, no final do mesmo ano, com honras de CCB.

À boleia de uma família onde todos, homens e mulheres, são Catarinas, e que alimenta há dezenas de gerações a macabra tradição de matar um fascista a cada ano, aborda-se a condição humana, questiona-se a nossa contemporaneidade, e a (in)justiça ou (i)legitimidade de usar das mesmas armas do inimigo contra as quais se luta com o desejo de as aniquilar.

A ação gira em torno do rito de iniciação de mais uma Catarina nesse sinistro cerimonial, e todas as questões surgem quandoa jovemse revela incapaz de matar o fascista que havia sido propositadamente capturado para o assassinato anual. Pode fazer-se frente à violência com violência? As Catarinas debatem o tema, em Baleizão, aldeia onde o autor situa a ação, no ano de 2028, sinalizando que a morte de Catarina Eufémia não foi assim há tanto tempo e que este futuro está já ao virar do calendário.

Uma obra pertinente de Tiago Rodrigues num mundo e num tempo que assistem ao recrudescer de movimentos intolerantes e extremados. Uma criação aclamada em todos os palcos por onde passou na sua digressão internacional. Da sala de espetáculos, ninguém sai como entrou.

Tiago Rodrigues, encenador, dramaturgo e produtor teatral,já recebeu o Globo de Ouro de Melhor Peça/Espetáculo, por Sopro, em 2018, e Três Dedos Abaixo do Joelho, em 2013.

Se Isto É um Homem – Encenação de Rogério de Carvalho

Mais uma obra-prima de Rogério de Carvalho. Mais uma peça que retoma o tema do holocausto. Não é coincidência, seguramente, que o enquadramento sociopolítico atual não é dado a equívocos naïfe. Com Se Isto É um Homem –peça que se estreou em palco em julho de 2019 no âmbito do Festival de Almada, e que integrou no final desse mesmo ano a programação regulardo Teatro Municipal Joaquim Benite, naquela mesma cidade –, o celebrado encenador recupera, mais do que a obra, o testemunho do escritor Primo Levi, judeu italiano que viveu na pele os horrores do campo de concentração naziAuschwitz-Birkenau. Em palco, várias personagens, todas interpretadas pelo mesmo ator, Cláudio da Silva, vão esquartejando um tema central: o que é ser-se humano? O que nos torna humanos? Uma interpelação que, por si só,permite perceber que podemos deixar de o ser, que há formas de pensar e agir que nos retiram a humanidade. O facto de o encenador ter concebido toda a peça para um único ator, enquanto um longo monólogo, encerra a premissa de que todos e cada um podem ser vários homens, nem todos eles humanos.

Rogério de Carvalho estreou este texto nos palcos portugueses para tentar fazer diferente das adaptações a que já assistiu da peça em palcos internacionais. Ao seu sentido crítico, em parte, se deve este feito, que aqui se celebra.

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