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TEATRO: Estes são os nomeados a melhor ator. Saiba porquê

António Simão, Cláudio da Silva, Elmano Sancho, Pedro Lacerda e Romeu Costa estão na corrida ao Globo de Ouro.

Chegaram-se à boca de cena, sedentos de palco e de público e do pouco que conseguiram mostrar, num país empurrado para o fosso de orquestra pandémico, fizeram coisas grandes e deram tudo. De entre todos, estes são os atores que mais se destacaram.

“Em Praga há uma cave. Brilhante como uma gruta de tesouros. Sombria e suja como um esgoto. Nessa cave há milhares de livros, centenas de ratos, visões passageiras e palavras que tornam o mundo grande. E há um homem, Hanta.” Esse homem, para aquilo que aqui importa esclarecer, é António Simão, ator – além de encenador e produtor – que um dia se cruzou com uma obra do checo Bohumil Hrabal e, em boa hora, decidiu transformar aquele universo estranho e belo num monólogo. Criada em 1997, a partir desta adaptação, diríamos antes dessa visão de António Simão, a peça Uma Solidão Demasiado Ruidosa estreou no CCB, nesse mesmo ano. Em 2020, 23 anos após esse primeiro espetáculo, o mesmo ator e a companhia de teatro Artistas Unidos, voltam a essa cave, naquilo que chamam uma “revisão da matéria” e não uma reposição. António Simão volta a iluminar esse lugar sombrio e o palco todo com o seu desempenho, pelo qual chegou a esta resumida lista de nomeados.

Se Isto É um Homem, texto magistral de Primo Levi, sobre o holocausto, o mais horrendo pedaço de história da humanidade, foi pela primeira vez adaptado e levado à cena no nosso país, pela Companhia de Teatro de Almada. Com encenação de Rogério de Carvalho, coube ao ator Cláudio da Silva, sozinho em palco, assegurar toda a hora e meia de duração da peça e encarnar várias e distintas personagens que implicavam total transfiguração. Fê-lo com a sua arte, e esta sobraria para muito mais. Um desempenho brilhante e intenso para um texto difícil, exigente, emotivo e de enorme intensidade psicológica. Testemunharam-no os espectadores que passaram pelo Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, no final de 2019 – ano que assinalava o centenário do nascimento de Primo Levi –, ou, no início de 2020, pelo Teatro do Bairro, em Lisboa, duas das salas onde esteve em cena. Se isto não é um homem de teatro…

Elmano Sancho apresenta-se este ano e pela quinta vez na lista de nomeados ao Globo de Ouro de Melhor Ator de Teatro. O que, podendo não dizer tudo, fala inegavelmente pela consistência do trabalho e do talento do ator. Depois de Não se Brinca com o Amor, que lhe valeu a nomeação em 2012, Herodíades, em 2013, A Estalajadeira, em 2014, e Display, em 2018, Lulu é a peça que lhe garante lugar na pré-seleção deste ano. Nesta peça do Teatro Experimental de Cascais – uma versão de Miguel Graça do texto do dramaturgo alemão Frank Wedekind e com encenação de Carlos Avilez –, cabe a Elmano Sancho o papel do editor Dr. Schöning e menções de destaque. Estas ganham maior significado num elenco todo ele de luxo. Uma prestação a que foi permitido ao público assistir no final de 2019.

De Anton Tchékhov e encenação de Sandra Faleiro, O Cerejal, que o Teatro São Luiz, em Lisboa, tinha em cena na Sala Luís Miguel Cintra, ajeitou-se ao pequeno ecrã com transmissões online, que ocorreram entre 11 e 14 de fevereiro último, como forma de enfrentar mais um confinamento. Ao vivo, ou neste palco virtual, foi possível assistir a esta adaptação da última peça escrita pelo dramaturgo russo e aplaudir, de pé ou sentado no sofá, ao brilhante desempenho do ator Pedro Lacerda. Com um currículo extraordinário, extenso e profícuo em qualquer uma das suas vertentes, cinema, televisão ou teatro, Pedro Lacerda é um nome maior na sua arte, a qual, este ano, escalou para esta nomeação.

No espetáculo de Tiago Rodrigues, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, o ator Romeu Costa é um homem a aguardar a morte. Um elemento da extrema-direita – força política que governa o país num futuro já quase aqui, situado no ano de 2028 – capturado por uma família que inicia um novo membro na arte de matar fascistas. A ação decorre em Baleizão, terra de uma outra Catarina, que a esta família, toda ela composta por Catarinas, mesmo quando nascem homens, parece ter deixado o legado e a justificação de aniquilar fascistas. Mas não muitos, apenas um por ano. Neste ritual de passagem, nesta inquietante distopia, neste momento antes da morte iminente, cabe a Romeu Costa a defesa do discurso extremado da direita governante. Um desempenho soberbo, na defesa do indefensável, a merecer ovação.

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