O psiquiatra António Bento acompanha pessoas sem-abrigo há cerca de 30 anos e não tem dúvidas em afirmar que a maioria são casos de doença mental. Defende que é prioritário saber quem são os sem-abrigo, que “é uma coisa que ninguém sabe, nem eu próprio”, diz. Critica que se continue a falar dos sem-abrigo “por palpites”, como se fossem um grupo homogéneo, como se todos sofressem dos mesmos problemas. Quando a realidade é muito mais complexa.
João Nobre fala com mágoa dos que mudavam de passeio quando se cruzavam com ele. Filho mais novo de uma família que lhe deu “uma educação espetacular”, ainda hoje não consegue explicar o caminho que seguiu. Dos primeiros consumos na adolescência às drogas duras foi um salto. Perdeu trabalhos, perdeu oportunidades, perdeu teto, ganhou a rua. Diz que se sentiu abandonado, tentou esticar a mão mas não havia ninguém do outro lado. Sobrou a irmã, “que nunca o abandonou”.
Sempre pensou que só podia acontecer aos outros, mas aos 26 anos sentiu o choque da primeira noite na rua. Anos de consumo, primeiro de álcool, depois de drogas, levaram-no a caídas e recaídas até os pais lhe recusarem mais uma oportunidade. Rui Pinto teve de aprender a sobreviver na rua, onde dormir, como comer, como se lavar, como arranjar dinheiro para o tabaco. Aos 42 anos, diz não ter nada, vive do que lhe dão. Neste momento, Rui Pinto está em tratamento numa comunidade terapêutica.
Para Joana Teixeira, da Associação Conversa Amiga, estamos a falar de pessoas, pessoas que têm nome. “É preciso olhar para eles e perceber que não são os sem-abrigo, são o Jorge, o João, o Manuel, a Maria José”. A psicóloga considera que os que estão em condição de sem-abrigo têm muito para dar, não estão na rua porque querem mas porque não têm uma alternativa melhor. “Não são pessoas inferiores, não se podem infantilizar, não são coitadinhos”.
Henrique Pinto defende que a ajuda prestada pelas organizações que trabalham com sem-abrigo é fundamental mas não chega para tirar ninguém da rua. Para o dirigente da Associação Impossible - Passionate Happenings, somos todos perfeitos desconhecidos a viver ombro a ombro e temos de recuperar o espírito da comunidade que cuida dos seus. “Conhecemo-nos para a fotografia, mas quando saímos à rua ninguém se conhece"
Laudolino Jesus reconhece que falhou em tudo. Como pai, como marido, como empresário. Acabou na rua. Magro, sujo, com mau cheiro, lembra-se da dor que sentia pela indiferença do olhar dos outros, dos que antes o conheciam e não o reconheceram. Recomeçou do zero a reerguer-se. Trabalha para que outros como ele “sintam que conseguem dar a volta”.
Sem abrigo. Pessoas que pelas mais variadas razões vivem na rua. Mas quantos passam por eles como se não existissem? Fizemos a experiência. Dois jovens humilham um homem que está a pedir. Os três são atores mas a situação parece real e passa dos limites. Quem decide intervir? E Se fosse Consigo?
Alguém sem abrigo não merece respeito? Fizemos a experiência, em plena rua, com atores. Um homem aparentemente sem abrigo é provocado, maltratado, por dois jovens. Há quem passe, veja e vire as costas. A maioria finge que não vê. E Se Fosse Consigo? Também ia ignorar?
Muitas vezes, a esmola dos outros é o único sustento dos que estão sem-abrigo. Quem pede merece ser vítima da censura dos outros? Fizemos a experiência, com uma situação encenada. Junto a uma estação de comboios, dois jovens provocam e ofendem um homem que está a pedir. Muitos passam ao lado. Mas também há quem não tolere o desrespeito. E Se fosse Consigo?
Desde 1976 que não é crime viver na rua. Mas será que todos aceitam quem lá vive? Alguém está disposto a defendê-los quando são maltratados? Fizemos a experiência. Um ator no papel de sem abrigo é enxovalhado, ofendido por estar a pedir na rua. Tudo se passa à vista de todos. Alguém vai em sua defesa? E Se fosse Consigo?